O asfaltamento da tradicional avenida será um absurdo, em todas as suas dimensões.
A piada é antiga, mas ótima. O rapaz manda um e mail à prima, que está viajando. É direto: “Seu gato morreu!”. A notícia causa comoção na pobre moça. Seu marido, então, responde ao e mail, aconselhando o rapaz: “Não se dá uma notícia dessas assim. É necessário ir preparando a pessoa. Você poderia dizer primeiro ‘seu gato subiu no telhado’ e no outro e mail você dizer que ele morreu, entendeu?”. O rapaz concordou. Uma semana depois ele envia outro e mail para a prima: “Sua mãe subiu no telhado!”.
Pois então é essa notícia que quero dar a vocês: “A Avenida das Rendeiras subiu no telhado!”. Constatei isso ao ver as obras de asfaltamento de seu trecho final, na curva que vai para a Joaquina e estrada para a Barra.
Importante ressaltar o custo: 3,5 milhões de reais para 200 metros de asfalto (ou será que este preço, que consta na placa, é para um trecho maior, não executado?)
Trata-se, claro, de mais uma obra do projeto Tapete Preto, menina dos olhos da Prefeitura. Depreende-se que há o desejo de asfaltar toda a Avenida das Rendeiras, talvez duplicá-la, de forma que se ela transforme numa “moderna” e rápida via de escoamento de veículos. Algo como a Av. Beira Mar de São José. Muita gente acha que isso será ótimo, que isto é progresso. Mas vamos refletir a questão sob dois aspectos.
O PONTO DE VISTA TURÍSTICO
Em recente evento promovido pela RBS e governo do Estado, palestrou o presidente do Conselho Mundial de Turismo, Jean-Claude Baumgarten.Deu um show de competência e profissionalismo. Sua palestra foi comentada em vários jornais. Um dos conselhos que deu: “Não descaracterizem suas belezas naturais, suas vilas, seus bairros. É isto que o turista vem buscar. Melhorem suas estradas e aeroportos, mas preservem o ar bucólico de suas localidades!”.
Ao asfaltar nossas vilas de pescadores, como a Barra da Lagoa, estamos preservando o quê? Ao transformar a Av.das Rendeiras numa rápida via para carros, que registro histórico e bucólico estaremos preservando?
Um dos locais de turismo mais avançado do país é o Ceará, que recebe durante todo o ano levas de turistas de alto pode aquisitivo, especialmente europeus. Como conseguiram isso? Não foi asfaltando Canoa Quebrada, que continua linda com suas ruas de areia, mas com investimento em treinamento na área de serviços, limpeza e melhorias nas vias de acesso. Asfalto só do aeroporto até as imediações das localidades turísticas. Nelas não. Elas são preservadas, porque, afinal, um europeu não vai atravessar o Atlântico para ficar torrando numa vila asfaltada e com cara de grande cidade.
Ruas de lajota, clarinhas, menos quentes, bem preservadas, mantém o clima de tradicional, de cidade pequena, autêntico, que os visitantes tanto gostam. Parece claro para mim isso. O que você acha?
O PONTO DE VISTA ECOLÓGICO
Várias cidades dos Estados Unidos e da Europa proibiram o asfaltamento comum de suas ruas e estradas. Constataram que este revestimento impermeabiliza o solo, não permitindo que as águas se infiltrem abastecendo os lençóis freáticos. Não infiltrando, provocam poluição, e enchentes na época das chuvas.
O aumento da temperatura ambiente também é levado em conta, pois o asfalto preto absorve calor, elevando a temperatura das ruas em 6 graus, em média, transformando-as num deserto preto. Hoje, lá, só é permitido o asfaltamento de estradas com um novo tipo de asfalto, o poroso, que permite a absorção das águas.
O Aqüífero dos Ingleses, que fornece água para aquela região, já está sofrendo as conseqüências da impermeabilização do solo, fruto do asfaltamento massivo, cimentamento de quintais e extração de água pelas ponteiras. Se o aqüífero baixar muito seu nível, pode ser inundado pela infiltração da água do mar e, com a salinização decorrente, perder sua função, o que acarretará, além de falta dágua, profundas mudanças na região, pois todo o eco sistema será afetado.
As águas das chuvas na região da Av. das Rendeiras penetra pelas frestas das lajotas, é filtrada pela terra e chega à lagoa limpa e fagueira. Com o asfaltamento, a água será rapidamente carreada para a lagoa, levando consigo toda a sujeira que estiver na superfície da avenida, provocando uma inevitável poluição.
Vale lembrar também que a temperatura subirá muito, e os restaurantes da região serão afetados, pois além da comida quentinha terão clientes bem quentinhos, que logo logo vão preferir outros locais mais frescos. Serão surpreendidos também pela poeira asfáltica, bem pretinha, que será levantada pelos carros, e que dará um aspecto torradinho aos pratos servidos e uma sujeira básica no ambiente. Ou seja, o tapete preto vai entrar em nossos restaurantes e narizes.
ENFIM, CHEGA DE ASFALTO
Pode ser que para muitos o asfaltamento de ruas signifique conforto e modernidade, tanto que inúmeros moradores da Barra e de outras regiões ficaram encantados com o tapete preto e quente que passou a cobrir as ruas. Claro que é bom andar numa rua lisinha, sem lama. Mas a opção anterior, das lajotas, também oferecia esse conforte, além de serem clarinhas (refletem mais calor), permitirem a infiltração das águas (serem ecológicas) e não agredirem tanto a paisagem de nossos bairros à beira mar (preservacionistas). Tudo de bom.
Se levarmos em conta os prejuízos e benefícios desses dois tipos de calçamento, fica óbvio que a opção das lajotas é infinitamente melhor, sob todos os aspectos.
O alerta e os argumentos contidos neste artigo ficam para a reflexão e inteligência de cada um. Ainda dá para tirar a Av. das Rendeiras de cima do telhado. Mas que ela está lá em cima, está.
CARLOS LEMOS



