A educação formal se ocupa somente com um de
nossos aspectos, o racional. Desenvolvemos habilidades
mentais, mas mal sabemos o que sentimos.
Fomos treinados para nos especializar e assim perdemos
a consciência de nossa totalidade como ser humano.
Somos educados tecnicamente, mas pouco humanamente.os (Rudi Moreno com 27 e Giuliano com 14), me fez revisitar duas vezes, quando os ajudava nos estudos, os assuntos que estudei no que era o Primário e o Ginásio, no meu tempo.
Várias vezes escutei deles a queixa de que eram obrigados a estudar e decorar coisas em que não viam nenhum propósito ou utilidade e/ou que não estavam em seu campo de interesse. E também que, se necessitassem daquela informação no futuro, poderiam simplesmente consultar uma fonte, sem precisar armazenar tanta coisa na memória.
Algumas vezes, com eles, ensaiei entrar no discurso óbvio (que também escutei) da importância da educação, de que no futuro aquilo seria importante, etc. Mas tentando ter uma escuta mais desarmada sobre o que diziam e uma postura mais verdadeira com o que eu sentia, na maioria das vezes concordei com seus argumentos. Realmente, uma enorme parte das coisas que tive que aprender e decorar, que me consumiram alguns milhões de neurônios e me causaram angústias em tantas situações, nunca mais as encontrei na vida e não tiveram nenhuma utilidade ou razão em minha existência.
Exemplos, aos milhares: saber os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas, algo que consumiu dias de estudos e tensão de milhões de crianças (cite três afluentes, agora). Ou o nome da serra localizada no interior de Pernambuco (surreal – a exigência, não a serra). Quanto às inumeráveis regras da língua portuguesa, que me alucinavam na análise sintática, tive que aquiescer perante eles: nunca mais as havia encontrado e nunca me serviram para nada (se fizer três perguntas agora - olhando o livro, claro - duvido que alguém, exceto professores de português, saiba responder).
Na última vez em que fui ajudar o Giuli, ele reclamou que o professor de Química exigira que soubesse decorada a Tabela Periódica dos Elementos. Prontifiquei-me a ajudá-lo, contando usar os inumeráveis truques de decoreba que gerações utilizaram (musiquinhas, sinopses, etc). Mas quando abri a dita Tabela, desisti imediatamente. É demais ter que saber aquilo “de cabeça” e ainda arranjar uma justificativa para a importância do fato para um garoto de 14 anos.
Mesmo em estágios mais avançados, esta situação se repetiu em minha vida. Adulto, já formado em Psicologia, com minha área de atuação definida, tive que enfrentar três semestres de quase terror no mestrado, com a matéria “Estatística Superior”. Matemática super complexa, cálculos sem fim... Indispensáveis para um psicólogo ou para as finanças de uma professora bem relacionada? (A interpretação era óbvia e dispensava profundidades inconscientes).
Ou seja, nas inúmeras oportunidades em que voltei a estudar, no primeiro e em outros graus, sempre me vieram estes pensamentos e estas constatações. E passei a aceitar que meus filhos e um número infinito de jovens têm razão nessas queixas.
Ousaria dizer que este modelo de educação provoca muito mais angústia do que prazer, que não incentiva ninguém a estudar, além de estimular a fraude (foi o que fiz para passar em estatística - quem nunca “colou”?), dentre inúmeras outras mazelas.
EDUCAÇÃO “DE RESULTADOS”.
Todos sabem que a educação no Brasil está em crise (só a educação?). Somos um país de alfabetizados “virtuais” (a maioria dos alunos não consegue entender o que lêem) e estamos sempre na rabeira nos rankings dos países mais instruídos.
Há uma culpabilização implícita dos jovens, “que não querem saber de nada”, e do governo que, este sim, realmente não quer saber de nada com relação à educação do povo. E a solução aventada passa sempre por mais exigências e mais tempo na escola.
A classe média coloca, com muito esforço, seus filhos em escolas caras, que prometem “resultados” no vestibular - que passou a ser o grande critério de qualidade educacional. O foco da educação passou a ser dirigido para esta única meta: passar no vestibular.
Os objetivos do ensino e seus modelos quase nunca são pensados e questionados.
Afinal, o que é educar ou ser educado? É armazenar enciclopedicamente infinitas informações que não temos a mínima idéia como poderão nos servir? É treinar e desenvolver habilidades de memória de curto prazo (que nos faça obter resultados em provas) sobre assuntos que rapidamente esqueceremos? É hiper desenvolver somente o aspecto racional do nosso ser (em detrimento de outras dimensões)? É obrigar jovens a terem interesse e se dedicarem a coisas que legitimamente não lhes interessam? É dar a mesma informação, no mesmo período de tempo, para pessoas com aptidões e ritmos completamente diferentes, e cobrar desempenhos iguais?
Além de tudo, exige-se que gostem e que julguem isto fundamental para suas vidas.
Nos meus atendimentos clínicos, uma das coisas que mais me chamou atenção foi o grande número de clientes que se queixavam de que foram obrigados a estudar e trabalhar em coisas que não gostavam, por exigência da família. Talentos desperdiçados (muitos conseguiram mudar de profissão, graças), pessoas frustradas profissional e pessoalmente. Infelicidades encomendadas. Em nome de quê? Para satisfação de quem?
ALTERNATIVAS
Não crescemos como pessoa na medida em que nos parecemos com um modelo externo, crescemos quanto mais nos parecemos com nós mesmos. A educação formal parece que se ocupa somente com um de nossos aspectos, o racional, com o auxílio da hiper memória direcionada. Desenvolvemos habilidades mentais, mas mal sabemos o que sentimos. Fomos treinados para nos especializar e assim perdemos a consciência de nossa totalidade como ser humano. Coisas fundamentais não nos são ensinadas nem solicitam que entremos em contato com vários aspectos fundamentais de nosso ser. Somos educados tecnicamente, mas pouco humanamente.
A educação formal atual não nos abrange. Somos seres multidimensionais: temos razão, emoção, intuição, sentimentos. Vivemos simultaneamente na relação com o nosso interior e o exterior. Somos seres também divinos e espirituais. E fazemos parte do reino animal. Somos complexos.
Creio que um projeto educacional mais amplo e inteligente deveria também cuidar de coisas fundamentais de nossa existência e também levar em conta a meta humana pessoal de ser feliz (eis um bom tema para discussão em sala de aula!). Deveria nos facilitar o caminho para chegarmos cada vez mais perto de nossa essência e nos ensinar como expressá-la.
Soltando a imaginação: deveríamos ter matérias como alimentação e saúde (é trágico nosso desempenho atual neste item); uma cadeira bem extensa de educação emocional (por exemplo, como fazer quando temos raiva de alguém?); poderíamos ter práticas mais solidárias e menos competitivas (já encheu essa de olimpíadas escolares); e receber informações e incentivos para utilizarmos nossa intuição e criatividade, normalmente soterradas pelas argumentações racionais.
Poderíamos ter matérias “filosóficas” que nos colocassem questões para pensar, pesquisar e conversar, tais como “o sentido da minha vida”, “a relação do homem com a natureza” e outras sobre assuntos como ética e valores. Outras ainda que nos habilitassem a nos perceber melhor – nossa energia, nossos pensamento,s etc -, e que nos oferecessem recursos para agir sobre essas percepções: como nos acalmarmos, como usar recursos expressivos e artísticos para ultrapassar situações difíceis, como lidar com momentos de crise, etc. Deveríamos ter a oportunidade de aprender e desenvolver a nossa dimensão espiritual, assim como ter informações e reflexões mais profundas sobre a sexualidade.
E por aí seguiria um currículo diferente e interessante, que não prescindiria da matemática, da história, da geografia, etc, mas que ofereceria a oportunidade de alcançarmos uma consciência mais profunda de nós mesmos e de nossa relação com o mundo. O caminho da realização pessoal ficaria mais fácil.
È claro que uma educação assim possibilitaria uma mudança social mais ampla e profunda. Mas afinal, o que estamos querendo para nossos filhos? Que vivam neste mundo e país que cada vez se deteriora mais ou que sejam mais felizes e capazes de ter esperança e força para modificá-los.
Bom, para muitos, talvez venha o pensamento: “falar é fácil, mas utopias não existem...”. Menos. Tudo o que hoje temos de bom um dia foi sonho e projeto (faltou essa aula também).
“Sonhos, acredite neles” – sugiro esta lição no lugar dos afluentes do Amazonas.
RALPH VIANA é psicólogo e jornalista. Carioca, mora no leste da ilha há seis anos.