O DISCURSO E A PRÁTICA
Numa entrevista em que não faltam elogios à própria administração,
o Secretário municipal expõe-se à confrontação com a realidade
e à opinião totalmente divergente dos moradores.
O Jornal LESTE DA ILHA entrevistou o Secretario de Transporte de Florianópolis, Norberto Stroisch Filho, a respeito de várias questões importantes para os moradores de nossa região, uma das mais sacrificadas com relação à locomoção, especialmente no verão.
Constatamos que a visão do Secretário é imensamente diferente da sentida diariamente pelos moradores que têm que utilizar os transportes públicos. Por exemplo, enquanto o Sr. Stroisch declara que “há uma integração perfeita entre todas as regiões”, o que vemos é que tal integração na realidade não existe, mesmo entre dois bairros vizinhos, como a Barra e o Rio Vermelho. Em várias outras questões, há discrepâncias radicais entre o que fala o secretário e o que vive a população.
Daí que resolvemos publicar sua entrevista e uma resposta dos moradores às suas afirmativas. Assim se faz uma democracia, não só votando a cada dois anos, mas dando voz aos cidadãos para dialogarem com seus governantes.
Qual é a situação do transporte público em Florianópolis?
Pela primeira vez na historia, a capital ultrapassou os 6 milhões de passageiros/mês, pois estávamos numa faixa de 5,3 a 5,7 milhões. Esta realidade demonstra que mais pessoas começaram a usar o transporte público, fruto da melhora da qualidade e do valor tarifário, que é um dos menores. Além disso, há uma integração perfeita entre todas as regiões, por exemplo, uma pessoa pode sair do Rio Vermelho e ir até Pântano do Sul (70 quilômetros) com apenas uma passagem. Na Barra, já são oferecidos horários diretos ao centro, sem fazer transbordo. As ofertas do serviço sempre são ampliadas proporcionalmente à demanda existente em cada comunidade.
Como é a relação da Secretaria com as comunidades da capital?
Nós estabelecemos parcerias com as entidades representativas de cada comunidade, através dos Conselhos Comunitários, Associação de moradores e outros. Estes passaram a ser nossos grandes parceiros, por que eles são os que usam, os que observam, então, toda vez que uma comunidade nota alguma deficiência, alguma necessidade de ampliação de oferta, qualquer assunto ligado ao transporte, nós damos toda atenção, através de vistorias, levantamentos, e uma vez constatada a procedência da solicitação, nós determinamos a ampliação necessária para regularizar a oferta naquela comunidade.
No leste da Ilha, há deficiência de horários no trajeto Lagoa–Canavieiras. Como podem resolver esse problema?
Já ampliamos os horários nas duas empresas que operam nesse trajeto, mas com certeza, na temporada de verão, esse serviço também se ampliará, em função da demanda. Agora, se a comunidade está constatando a necessidade de uma ampliação de ofertas nesta linha, com certeza, faremos o levantamento e a avaliação, para ampliar os horários.
Algumas entidades do leste da Ilha debateram sobre a possibilidade de implantar o sistema de transporte fluvial. Qual é sua opinião sobre o tema?
A prefeitura, como poder concedente e controlador do sistema hidroviário da Lagoa, já opera as linhas Costa-Rio Vermelho e Costa da Lagoa–Lagoa da Conceição, através de duas cooperativas. Já fizemos os levantamentos necessários para uma linha regular, na temporada, dependendo da demanda, da Lagoa até a Barra da Lagoa, tendo as duas cooperativas e o sindicato de pescadores de Santa Catarina se mostrado interessados em fazer o trajeto.
Nós estamos aguardando que eles tomem a iniciativa, a apresentação, por parte destas entidades, porque nós só oferecemos a autorização da operação.
Já fizemos o trajeto, poderá haver a necessidade de uma dragagem na entrada do canal da Barra e também temos que definir os pontos de parada, trapiches, mas essas definições são complementares.
O que precisamos é a proposta destas entidades, a Secretaria de Transporte está pronta para autorizar a operação desta linha.
Existe a possibilidade de implantar o trajeto Fortaleza da Barra-Lagoa?
Por incrível que pareça, nesse local, existe um desentendimento interno. Foram feitas duas reuniões na Fortaleza e não existe entendimento entre os moradores. A Secretaria não vai impor uma situação em que não haja consenso, ou se entendem ou não tem ônibus. O projeto era cobrir o trajeto principal, que seria Fortaleza–Lagoa, com pequenos ônibus.
Qual é a maior dificuldade que nossa cidade tem em matéria de transporte?
O grande desafio, hoje, para o transporte coletivo, é a melhora da sua eficiência. O problema não está no ônibus, nossa maior dificuldade do transporte, hoje, é o sistema viário. Quem mora na região leste, mais uma vez vai enfrentar o caos no verão. Você imagina nossas linhas que atendem essa região, tudo trancado no trânsito, como é que cumpriremos os horários?
A Secretaria de Transporte não pode programar alguma medida para melhorar esta situação dos engarrafamentos na Avenida das Rendeiras e Praia Mole?
Temos muitos projetos, mas tudo vai depender de decisões e de estrutura financeira. Já trabalhamos com a polícia, a guarda municipal, para disciplinar os estacionamentos à margem da rodovia na Praia Mole. Isso já vem acontecendo, talvez não com tão grande eficiência, mas são intervenções necessárias. A solução é uma somatória de setores para atuar e minimizar o caos. Na última temporada, acompanhamos esse drama, vimos o engarrafamento no Itacorubi, como é que o ônibus vai cumprir horário? Como é que a integração vai bater?
Para fazer obras como possíveis duplicações ou fazer um túnel, custa muito dinheiro, além das questões ambientais.