O nome do presidente do IPUF foi a maior surpresa entre
os novos indiciados. Ildo Rosa nega envolvimento e
mostra-se indignado. A entrevista ao LESTA DA ILHA
já estava pronta e resolvemos publicá-la,
pela importância de suas idéias e posições. Leia!
Dr Ildo, como estava o IPUF quando o Sr. assumiu ?Uma absoluta ficção, um órgão com 30 anos que não dispunha de equipamento modernos. A cartografia era muito antiga e com estas ferramentas havia dificuldade para desenvolver qualquer trabalho, tivemos de treinar os funcionários. Conseguimos fazer a definição do zoneamento ambiental da cidade, que não existia em Florianópolis, gerando uma situação complicada, sobretudo no momento em que surgiram demandas, quando, por exemplo, o Ministério Público precisava provar que alguém está ocupando uma área de preservação. Agora temos fotocartas com escalas de 1:10.000 e outra de 1:5.000, e isso permite que qualquer biólogo possa fazer as definições com relação ao zoneamento ambiental.
Não deveria haver uma reforma administrativa na Capital?Sim, com certeza. A administração pública do município de Florianópolis é lamentável! São 9.000 funcionários emaranhados, sem regras, muitos deles sem a menor noção de que são servidores de estado e não de governos; eles têm que dar um serviço para a população e não para o político de ocasião.
Em que estágio está o Plano Diretor do município?
Se o Plano Diretor (PD) fosse um modelo clássico, provavelmente já estaríamos com ele pronto, mas como o processo é participativo, as iniciativas que se adotam têm de ser debatidas com a população, por isso, demora mais tempo. Além disso, em paralelo, nós promovemos a revitalização dos órgãos encarregados de dar apoio ao PD e meu principal objetivo foi o fortalecimento do IPUF.
Por que o senhor acha que falta participação dos setores repre-sentativos nas reuniões do P. Diretor?A gente percebe que, onde se fortalece a participação direta da população, há um certo receio do poder representativo, porque nossa cultura não é participativa, ela é representativa, uma cultura forjada em cima dos interesses de certas elites que acham mais fácil a manipulação dos representantes eleitos. O Plano Diretor serve para que diferentes setores reivindiquem seus pedidos, serve para discutir as demandas.
O PD vai considerar os espaços públicos? Isso é fundamental, a grande discussão do Plano Diretor vai ser esta questão, porque quando falamos de espaços públicos, falamos de espaços coletivos, e quando se tem a visão do coletivo, se deixa a noção da rua como pista de rolamento e se passa a visualizar a rua como centro de convivência, onde as pessoas se encontram. Como a população saiu da rua, esse espaço foi ocupado por alguém. O próprio marginal é estimulado a praticar o crime porque não tem ninguém para testemunhar, as pessoas estão em casa, fechadas, não intervêm, não participam. Os espaços públicos foram se degradando. Em Florianópolis, temos um descaso com a orla, a beira de mar: em qualquer lugar mais evoluído este é o lugar mais nobre, o mais disputado, o de mais valor, mas no centro de nossa cidade 28 % de nossa orla já estão ocupados, sem visibilidade, sem que a população conviva com o espaço natural.
O que pode fazer a comunidade para resolver esta situação?Esta situação tem que ser enfrentada, temos que traçar políticas públicas claras com relação ao aproveitamento de áreas públicas. Para isso, temos que aliar a participação popular e o poder público. Ninguém pode se assenhorar, como algumas pessoas se assenhoram e, a partir daí, querer submeter o interesse coletivo, de todos, ao interesse privado. Quando nós observamos, por exemplo, os bares da Lagoa da Conceição, nós trabalhamos em cima do espaço, porque a origem deste espaço é pública.
O senhor não considera que esse espaço dos bares na Lagoa impor-tante para o lazer da comunidade?Se for para criar um conceito de lazer, que seja feito de forma honesta, que se abra um edital, porque fazer como se fez, tudo às escuras, aliado à omissão e inoperância do poder público... Por exemplo, aquela área do restaurante Oliveira e do supermercado Chico, ao lado, aquilo é uma grande afronta à população, por que é um espaço da coletividade, de todos.
Como se resgata o espaço público?Eu vejo o resgate do espaço público através de uma legislação séria, clara, e que a população apóie, se engaje. Por isso o processo do PD é importante, porque vai vir com força a partir das comunidades. O PD não é um projeto do governo tal, não é o IPUF, é a sociedade civil que está pautando. As demandas são muito mais honestas, mais legítimas, porque não é um compromisso de campanha, é realmente inverter a direção na comunidade, e a partir daí traçar políticas públicas que contemplem essas demandas.
Dr. Ildo, já participei de muitas reuniões do PD e ouço dizer com freqüência que enquanto os vereadores tiverem o poder de modificar o PD, não vai adiantar nada.Essa é uma preocupação de todos, porque nós sabemos que o envolvimento da Câmara de Vereadores, desde o início, vem sendo extremamente preocupante. Nas reuniões distritais e nas assembléias populares, eles participam muito pouco. Nós realmente sentimos que a preocupação dos vereadores para com o PD é mínima.
Que pode fazer a população para evitar que não desrespeitem a vontade popular?Constituiremos, amparados em lei federal, os conselhos das cidades com caráter deliberativo. No momento em que esses conselhos forem compostos, as modificações do Plano Diretor deverão ser submetidas primeiro ao conselho. A nossa idéia é pegar o núcleo gestor tal qual ele está composto agora, que é extremamente representativo, e o transformarmos em conselhos da cidade com caráter deliberativo. Assim vamos garantir o processo, amparados por lei, porque o estatuto da cidade prevê e exige. Provavelmente deverão ser criados ainda este ano, como garantia do cumprimento e da execução do Plano Diretor Participativo.
Como o senhor imagina o futuro da cidade?Há um fenômeno mundial, que é o fenômeno da concentração urbana, a tendência à litoralização e a tendência às cidades, até porque a população cresce de forma vertiginosa. Eu acho em Florianópolis teremos que ter parâmetros totalmente diferenciados. Não podemos tratar o futuro da capital da mesma forma como se projetam outras cidades que não têm nada que preservar.
Temos que trabalhar em Florianópolis com conceitos modernos. A começar por enfrentar a capacidade suporte, ou seja, o que pode uma determinada região absorver de pessoas. Não existe algo mais insustentável que o ser humano, ele polui de todas as formas, essa é uma realidade. Não temos que fechar a ponte, mas aquele que entrar na ilha vai ter que entrar de forma certa. Nós temos de ter um controle, temos de saber quantas pessoas chegam. Hoje não temos uma idéia, porque nos descuidamos de nossas áreas empobrecidas. Hoje temos 64 bolsões de pobreza em nossa cidade, algo gravíssimo, porque temos uma natureza muito peculiar, 65 % de nosso território são áreas de preservação. Temos somente 28% de nosso solo urbanizado, logo, temos de pensar muito a respeito de como deve ser feita a ocupação, temos que ter uma lei clara.
educação através do comportamento e do cotidiano, as pessoas não respeitam umas às outras e não respeitam o espaço dos outros, por isso, deve haver uma lei clara.
O que não foi regulamentado até agora?Eu vejo alguns dispositivos básicos para Florianópolis que, de forma incompreensível, até agora não foram regulamentados. Um deles se chama estudo do impacto de vizinhança, porque quando alguém chega, intervém em uma determinada zona geográfica, e essa intervenção vai acarretar problemas de visibilidade, de mobilidade urbana, de acessibilidade, de abastecimento, de água e de saneamento básico para todas as pessoas que moram no entorno. É evidente que todas as pessoas têm de se manifestar quanto ao interesse de que naquela área se construa alguma coisa. Isto é uma coisa muito simples, eu moro num bairro em que estão construindo vários prédios, mas eu tenho certeza de que nenhum destes prédios seria edificado se se aplicasse o impacto de vizinhança.
O PD pode indicar que tipo de turismo queremos? Temos de rever a proposta de desenvolvimento sustentável para a cidade, que tem sua via econômica, ambiental e social. A visão econômica do turismo deve ser revista, especialmente a questão massiva do turismo, porque não temos suporte para isso. Ou se qualifica melhor o turismo ou se faz como em outras cidades do mundo, se controla, se taxa, e estas são medidas antipáticas.
Chegam aqueles ônibus de excursão, se apropriam de uma praça, fecham as saídas de moradores locais... É um turismo massivo, vêm pessoas de todo tipo, que vêm pelo barato, pela barganha, não temos banheiros nem outras aparatos para receber tanta gente. Temos de ter uma estrutura que permita qualificar melhor até porque nosso espaço é especial, há uma qualificação nata, devemos valorizá-la.
Dr. Ildo, a comunidade do Rio Vermelho está preocupada com a falta de calçadas no Travessão e na rodovia João Gualberto Soares. O que o senhor tem a dizer sobre o assunto?A operação Tapete Preto surgiu como alternativa emergencial, para as comunidades que pisavam no barro e que reivindicavam o asfalto. Só que o asfalto demanda toda uma infra estrutura, e um dos equívocos da política do Tapete Preto é o fato de não haver reservado espaço para uma calçada, e agora vamos ter dificuldade com a sinalização e, principalmente, com atropelamentos.
No Travessão, vamos ter que colocar redutores de velocidade. Além disso, eu vejo que o problema mais grave do Rio Vermelho é a própria rodovia estadual que cruza o bairro. É uma estrada com curvas bem acentuadas, mal sinalizadas, e essa dualidade entre o que é do estado e o que é do município prejudica a população, porque, para fazer qualquer intervenção, temos de pedir autorização para a polícia rodoviária estadual, porque é uma via estadual, uma SC.