As praias sempre foram consideradas lixeiras naturais, tanto que as casas eram construídas com os fundos para o mar. Está na hora de mudar!
Num delicioso e informativo artigo, o cronista Sérgio da Costa Ramos, no DC, traçou um histórico da relação dos moradores da ilha com suas belas praias, hoje muito mais valorizadas, mas ainda pouco cuidadas.
Segundo ele, “a Ilha sempre teve uma relação pouco asseada com os seus rejeitos e construiu ritos para escondê-los - nunca resolvê-los. Seu único esgoto organizado era o "Tigre". Barril de madeira, mal calafetado, no qual negros ornamentais - saídos, talvez, de um quadro de Debret - transportavam os "produtos orgânicos" das famílias, numa fétida procissão que passeava pelas ruas, até a Prainha, o Vai-Quem-Quer e o Forte Santa Bárbara.
Não era à toa que as casas davam seus fundos para o mar. A principal razão era o "conforto" de ter o oceano como lixeira, e poder jogar às suas águas todo tipo de dejeto, como assinalou Oswaldo Cabral, citando Gilberto Freyre:
- As praias eram lugares onde não se podia passear: nelas se faziam os despejos, descarregavam os "tigres", os gordos barris de excremento. Praia queria dizer "imundície".
As cozinhas mantinham uma janela aberta diretamente para o mar e, de vez em quando, surgiam "os braços roliços de alguma mucama, jogando para fora águas servidas, barrelas e todos os caldos suspeitos". E não se diga que esse tipo de arremesso acontecia apenas nos quintais. Em casas que não dessem para o mar, a janela das porcarias poderia muito bem comunicar-se com a rua. Neste caso, pediam as posturas que "o arremesso" acontecesse mediante aviso prévio. O lançador das sujeiras deveria gritar, alto e bom som:
- Lá vai água!...
Multava-se não a sujeira lançada. Mas o arremesso não anunciado.
Tantas eram as transgressões às posturas que o jornal “O Argos” acolheu o candente protesto de um morador da Ilha, dirigido aos fiscais do município:
“- A vista e o olfato, senhor fiscal, são dos maiores dons com que nos mimoseou a natureza. Mas há dois "entes" nesta cidade que declararam guerra a esses sentidos. São os Tigres, senhor fiscal, e os cabritos. Os "Tigres" andam impunes pelas ruas às 9h da noite - e os cabritos, de dia e de noite. Uns ofendem o olfato com a sua pestilenta catinga, outros agridem a vista com as suas cenas impudicas. Piedade, senhor fiscal. Fogo nos "Tigres", fogo nos cabritos!
Cabrito fornicando era ofensa. Mas cocô na orla, era normal. "Catinga", a própria Casan se encarrega de providenciar. Como fez (singular de "fezes"?) com a "Chernobil do Cocô", equipamento inútil, instalado em lugar nobre, no conspurcado aterro da Baía Sul.
Com esse passado sinistro - e seguidas administrações públicas que se empenham em recolher tributos, mas sonegam a contraprestação em serviços - não chegam a surpreender os vergonhosos índices de canalização dos esgotos na Ilha de Santa Catarina. Não passam de 20% os prédios e domicílios ligados à rede pública.
O lixo se permitia lançar à praia a qualquer hora; as águas servidas e as fezes, só à noite, das 10h até o alvorecer. Era a tal mania de "salvar as aparências". O que não se vê, não se critica. Embora não deixe de feder. Os "Tigres" de hoje são as "fossas" de todos os quintais, sejam eles à beira-mar ou à beira-rua”.
Dados Críticos
A maravilhosa crônica do Sérgio foi escrita em função da notícia que o PAC - "Programa de Aceleração do Crescimento” do governo federal destinará R$ 30 bilhões para "água e esgoto", estrutura essencial para a saúde pública, da qual se ressente todo o Brasil, especialmente - surpresa! - o Estado de Santa Catarina, um dos mais atrasados da Federação. A perplexidade é ainda maior: Florianópolis, capital tão festejada por sua qualidade de vida, tem uma paupérrima cobertura de esgoto, situando-se em níveis muito inferiores às capitais nordestinas no que diz respeito a essa higiene.
Esperam-se mudanças através da ação governamental. Mas esperamos também mudanças na “tradição” e consciência individual de cada um: praia não é lixeira, água é saúde.
Portanto, está na hora de mudar. Não deixe lixo nas praias, recolha o que encontrar!
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